Rafael Schultz

Eis sete coisas que aprendi com a escrita e que, aqui, transmito como conselho, ainda que não me ache habilitado para esse papel.

{ 1 } Leia.

Esse conselho pode ser um lugar-comum, mas não sem razão. Quanto mais se lê, melhor se lê. Assim como, quanto mais se lê, melhor se escreve. Você desenvolverá seu estilo de escrita próprio, influenciado pelos escritores que mais lhe agradam.

A leitura lhe trará inspiração, vocabulário, possibilidades de narrativa, entre outros. Leia os clássicos, mas também os seus contemporâneos. Não deixe de saber o que os seus colegas andam produzindo, o que presta, também, para se perceber em relação aos demais.

{ 2 } Leia poesia.

Leia, pelo menos, alguma poesia. Esse tópico poderia fazer parte do anterior, mas vale o destaque. Ler poesia, descobrir seus poetas e estilos favoritos, é importante, mesmo para quem se dedica à prosa. Um texto em prosa há de ter, ao menos, uma gota de poesia, ainda que no espírito.

{ 3 } Procure um chamado para a sua história.

A pergunta é: a que sua história foi chamada ao mundo? Ou seja, o que você quer, em essência, transmitir a quem ler sua história?

O chamado pode ser simples e genérico, como “provocar medo ou horror no leitor”, o que pode ser feito, por exemplo, em uma narrativa na qual um amuleto, desacreditado de início, parece fazer ressuscitar um ente querido morto e enterrado.

O chamado pode ser, ainda, mais complexo, como “a crítica à morosidade, complexidade e inacessibilidade dos sistemas legais”, que pode se manifestar por meio de uma narrativa em que o protagonista é preso e processado, e a história caminha sem que lhe seja informado o porquê disso tudo; contando com uma escrita que chega a ser enfadonha e cansativa, o que provoca no leitor o próprio sentimento relativo àquilo que se está criticando.

Enfim, procure um chamado, ainda que ele surja apenas durante o processo de escrita.

{ 4 } Preocupe-se com o uso correto da língua.

Certamente, o texto pode ser submetido a um revisor, mas quem se propõe a escrever deve ter a diligência de fazer bom uso da ferramenta que empunha. Não somos deuses, cometemos erros. Devemos, contudo, evitá-los.

{ 5 } Organize a sua obra.

Procure manter um arquivo com informações da história. Anote características dos seus personagens, ainda que não venham a ser usadas, como o local e a data de nascimento, o nome completo, o temperamento, idiossincrasias. Isso lhe ajudará a manter sua narrativa coerente.

Faça uma estrutura da história, dos seus capítulos ou das suas etapas, do que acontecerá em cada parte. Ainda que o seu processo seja começar a escrever do zero, sem qualquer planejamento, faça um esquema do que já foi escrito, o que lhe ajudará a ter uma visão geral do texto e a se localizar cada vez que retomar a escrita.

Tudo isso, obviamente, sujeito a mudanças de rumo, as quais certamente ocorrerão durante a criação.

{ 6 } Antes de publicá-lo ou disponibilizá-lo ao público em geral…

…peça a alguém próximo que leia o seu texto e lhe dê uma opinião sincera. Alguém da família, amigos. É uma maneira de ter sinalizadas questões que o autor, justamente por sê-lo, não consegue enxergar por si.

{ 7 } Saiba lidar com a crítica.

Procure levá-la em consideração, mas nem tanto. Não se assoberbe com uma crítica positiva, tampouco definhe com uma negativa. E não se esqueça da citação, de quem agora me fugiu a autoria: “a crítica é fácil, a arte é difícil”.

Rafael Schultz Ribeiro é carioca, advogado e escritor, autor de contos, crônicas, como Quatro e meia, O taxista da Samaria, Angústia e Nova Zelândia, todos disponíveis na Amazon, além de publicações acadêmicas.

Contribuição originalmente publicada no site Escriba Encapuzado

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5 thoughts on “Rafael Schultz

  1. Zulmira,

    Obrigado pelo complemento às dicas.

    Certamente, ainda que a escolha do leitor beta seja feita na família ou no círculo de amizade, há de se ter critério para fazê-la. Isso pode, realmente, não ser viável para todos, e talvez eu tenha tomado a realidade dos outros pela minha, ou, mesmo, pelo que ouvi de escritores experientes, os quais disseram submeter seus originais a amigos, para uma primeira leitura.

    Importante a sua menção da possibilidade de um leitor crítico profissional. E a Kyanja Lee é, de fato, excelente. Tive o prazer de ter um dos meus contos comentados por ela.

    1. Rafael,

      Pelo que conheço de alguns colegas, os leitores amigos tendem a ser também escritores, o que explicaria. É claro, como eu disse, não é impossível haver amigos “leigos” que opinem sinceramente sobre um texto; familiares eu já acho mais difícil.

      Abraço.

  2. Agradeço pelas dicas. Só tenho um comentário sobre a recomendação número seis. Família e amigos nem sempre são os melhores “leitores beta” a quem podemos recorrer. Eles têm a tendência de achar bom o trabalho e raramente fazem críticas.

    Eu só consegui uma opinião isenta, com sugestões relevantes e bem fundamentadas quando contratei uma leitura crítica profissional (a excelente Kyanja Lee).

    Tem sorte quem dispõe, em seu círculo familiar e de amizades, de pessoas com cultura suficiente e sinceridade a toda prova.

    1. Ei, Zulmira. Bem lembrado!

      Amigos e parentes não estão entre as primeiras opções de leitores críticos da grande maioria dos escritores. Claro que isso não significa muita coisa, afinal, nada está escrito em pedra, ainda mais no ofício da escrita. 😛

      Aproveitando sua deixa, eis aqui o link para o site da Kyanja Lee:

      http://www.kyanjalee.com.br/

      Abraços.

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