Rodrigo Mesquita

{ 1 } Leia bastante outros autores e gêneros.

  As palavras são os tijolos com os quais você constrói o texto. Porém, é necessário que você saiba como usá-los. Ler bastante é a principal maneira de aprender. Mas não se restrinja a um autor ou a um gênero específicos. Temos a tendência de ficar na nossa zona de conforto e isso se aplica igualmente à literatura.

Claro, se você gosta de fantasia medieval ou de livros românticos, leia-os, pois a leitura tem como um dos pressupostos o prazer e cada um tem um gosto peculiar do qual não deve se envergonhar. Contudo, a diversidade de gêneros e de autores enriquece a base de dados mental, gerando uma biblioteca essencial para se escrever melhor.

{ 2 } Comece pequeno.

Você deve gostar de escrever porque a escrita é um processo árduo. Da ideia inicial ao texto final, há um esforço tremendo. Uma coisa é imaginar, por exemplo, uma luta épica entre dois personagens, com espadas forjadas nos confins do Inferno, outra é passá-la para o papel de modo interessante e inteligível para o leitor.

Comece escrevendo textos pequenos, contos curtos, com poucos personagens. Serve como um ótimo treino para diálogos e cenas de ação, sem a pressão de produzir um livro ou uma saga. Participar de concursos literários pode ser um bom estímulo para treinar e aprender a se adequar a limites.

{ 3 } Arranje tempo para escrever.

Sei que pode parecer óbvio, mas de nada adianta ler montanhas de artigos e livros sobre processo criativo e técnicas de escrita se você não escrever nada. Mesmo que não precise trabalhar para se sustentar, a procrastinação é um dos maiores inimigos da produtividade.

É bom descansar, ler ou ver besteiras de vez em quando, mas o tempo é escasso. Desse modo, é indispensável escrever sempre, ainda que apenas uma linha. Se não tiver acesso ao computador ou aos manuscritos, pelo menos faça anotações a respeito da sua história ou de onde pretende chegar.

Provavelmente, haverá períodos na vida em que não terá como escrever, em que a prioridade será outra. Quando isso acontecer, prepare-se: ou finalize o trabalho, dependendo do estágio em se encontrar, ou faça um mapa da história com os nomes dos personagens e as respectivas trajetórias, inclusive daqueles que ainda não apareceram, bem como um resumo do que aconteceu e do que acontecerá.

Assim, quando esse período de suspensão terminar, você se lembrará mais rápido e terá melhores condições de retomar o texto, como menores chances de abandoná-lo.

{ 4 } Tenha livros de referência à disposição.

Livros de referência podem ser físicos ou digitais e não se restringem a obras sobre a escrita. Pelo contrário, englobam principalmente histórias escritas por outros autores. Se estiver com dúvida a respeito da melhor maneira de desenvolver um diálogo ou de descrever um cenário, pode verificar como outros o fizeram.

Não que se deva copiá-los, mas é a ideia do banco de dados que o escritor deve ter como ponto de partida. Pode ser, inclusive, que os exemplos que encontre não lhe sirvam e tenha que encontrar um jeito diferente. Mesmo assim, é importante, pois uma referência pode ser útil mais para frente.

{ 5 } Revise bastante o texto – no final.

Eu tinha o costume de ir revisando o texto conforme escrevia, o que fazia com que desperdiçasse uma quantidade inacreditável de tempo. Cada vez que volto a uma história, tenho a tendência de querer modificá-la, adaptá-la, mudar a linha de diálogo, pôr ou tirar características ou adjetivos, o que parece variar conforme o humor e a paciência do momento.

Aprendi a suprimir esse instinto e você deve fazer o mesmo se quiser terminar qualquer história um dia. Isso porque você só terá noção de como a história ficou quando terminar a primeira versão. É provável que esse primeiro esboço seja uma porcaria, pouco mais do que uma linha mestra ao redor da qual gravitam nomes, lugares e ações insípidas.

A segunda escrita serve para enriquecê-lo, lapidá-lo, cortar o que for grosseiramente desnecessário, dando-lhe a aparência de algo bom. Na terceira passada, começa a busca pela coerência interna de texto e de plot, sem deixar de lado as correções gramaticais e os erros de digitação. Podem ser ainda necessárias uma quarta, quinta ou sexta revisões, dependerá da experiência de cada um e, especialmente, a meu ver, do próximo item.

{ 6 } Encontre um leitor beta e aceite as críticas.

Admito que esta é uma das partes mais difíceis, pois o leitor beta deve ser uma pessoa sincera, disposta a ler, de verdade, o seu texto e discuti-lo. Por sorte, minha esposa e um amigo meu têm a empolgação e a paciência de me apoiar e de me ajudar. Não precisa ser alguém do seu círculo de convivência próximo, pode ser de grupos da Internet.

Enfim, o leitor beta lerá o seu texto apontando inconsistências, erros de todo tipo, problemas de ritmo, de diálogos, enfim, será quem que lhe dará todas as diretrizes para melhorá-lo. Logo, você deve ser humilde e aceitar as críticas.

Lembre-se que a razão de tal leitura é deixar o texto perfeito. Não adianta discutir com o leitor beta, nem assumir uma postura de defensor da integridade artística sagrada. Trechos que você considerava geniais ou indispensáveis serão cortados em um momento ou outro. Aceite.

{ 7 } Não desista.

Se você ama escrever, não desista. Pode ser que nunca se torne um best-seller ou um autor famoso, mas a escrita é gratificante. Além disso, existem muitas pessoas legais no meio, dispostas a compartilhar experiências, a avaliar os seus textos, a ajudar a divulgá-los.

Existem clubes, sites, páginas, plataformas e comunidades de escritores dos mais variados gêneros, como o Wattpad e o Widbook, bem como diversas ferramentas de autopublicação e tutoriais em português. De tempos em tempos, há concursos literários e editais de chamada para publicação em coletâneas de contos e de poesias. Enfim, não há desculpa para não começar ou para não continuar escrevendo.

Como em tudo na vida, sempre existirão aqueles que tentarão demovê-lo da ideia, dizendo coisas como “você está perdendo tempo”, “deixe de ser bobo”, “vá fazer algo útil”. Lembre-se, porém, de que a vida já apresenta muitas dificuldades por si só e de que não deve se deixar abater por comentários puramente negativos.

Continue escrevendo e deixe para revisar no final.

Rodrigo Assis Mesquita nasceu em São Bernardo do Campo, mas passou a maior parte da vida em São Paulo. Graduado e Mestre em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), trabalha na área, mas sempre gostou de escrever.

Passou a perseguir o sonho em 2013 e participou do concurso Brasil em Prosa da Amazon em 2015 com os contos Destroços do Passado e Quatro Heróis e um Bardo contra a Realidade Medieval. Acabou de finalizar um conto cyberpunk e está escrevendo o seu primeiro romance, uma ficção histórica brasileira. Site oficial.

Contribuição originalmente publicada no site Escriba Encapuzado

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